Artigo- Qual o problema de rediscutirmos a jornada de trabalho?
Não
é possível que passe despercebido a qualquer pessoa minimamente sensata o nível
de comprometimento físico e mental exigido de trabalhadores em alguns setores.
Tomemos como exemplo os supermercados, que funcionam de segunda a segunda. Para
garantir esse funcionamento contínuo, exige-se dos colaboradores uma dedicação
praticamente permanente. O tempo de descanso — seja semanal ou diário —
torna-se insuficiente e, muitas vezes, comprometido. Isso não é apenas uma
questão operacional, é uma questão de saúde.
Mas
o que mais chama atenção nesse debate é o clima de hostilidade. Discutir
jornada de trabalho virou quase uma guerra ideológica. De um lado, estão os que
defendem a redução da jornada, acusados de não compreenderem os impactos
econômicos. De outro, os que resistem a qualquer mudança, frequentemente vistos
como defensores exclusivos dos interesses empresariais. Um lado acusa o outro
de contradição, e enquanto isso, o diálogo real fica em segundo plano.
A
verdade é que nenhum dos lados possui total domínio sobre os impactos
econômicos e sociais de uma eventual mudança. Projeções variam, cenários
divergem, e a economia é dinâmica. No entanto, há algo concreto e inegável: algo
precisa ser feito. O ciclo de trabalho não pode consumir totalmente a energia e
as possibilidades de desenvolvimento pessoal. E é evidente que, em muitos
setores, isso está acontecendo. Será que podemos tratar disso?
Segundo
dados do Ministério da Previdência Social, divulgados pelo Portal G1, em 26 de
janeiro de 2026, em 2025 os afastamentos por ansiedade e depressão cresceram
15% em relação ao ano anterior e, somados, já formam o segundo maior
motivo de afastamento do trabalho no Brasil, atrás apenas das doenças da
coluna. Trata-se, inclusive, de um número recorde na média histórica, que vem
aumentando ano após ano e que muito provavelmente tenha relação direta com a
rotina de trabalho e da vida pessoal dessas pessoas.
As
condições observadas em determinadas atividades, somadas ao avanço da
informalidade e da precarização nas novas formas de trabalho, mostram com
seriedade que é preciso parar, respirar e refletir sobre este assunto. O mínimo
que se espera de uma sociedade madura é disposição para reavaliar seus próprios
modelos.
Por
isso, que defender a revisão da jornada não é defender menos trabalho. É
defender trabalho mais humano. Se a economia existe para servir às pessoas,
então é legítimo e necessário que as pessoas estejam no centro desse debate.
Dr. Alexandre Triches
Advogado
e professor



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